quinta-feira, 22 de julho de 2010

Entrevista aos D3ö

Uma longa conversa à distância, por mail, resultou na entrevista que vão poder ler agora. A idéia inicial era falar apenas dos D3ö, mas achei que não podia perder a oportunidade de ter o Toni Fortuna ao meu "alcance" e aproveitei para contextualizar o percurso que o levou até aqui.
Assim dividi a entrevista em três partes, sendo as duas primeiras um pequeno lamiré, sobre o passado artístico do vocalista do grupo.
1. É M’as Foice
- A tua primeira ligação a uma banda foi com os “É M’as Foice” – Como é que foi a tua participação nessa banda “mítica”
42na: Todo o processo dos mas foice foi sempre pura diversão, éramos um grupo de amigos que nos divertíamos juntos, e acordámos que quando a diversão acabasse, seria a melhor altura para acabarmos com a banda. E isso foi o que aconteceu, de uma forma bastante simples e sem “remorsos”.
- Ainda te sentes como um Rockabilly de poupinha no ar?
42na: Nem por isso, aliás essa letra era “dedicada” ao que nós víamos à nossa volta, não era propriamente um retrato pessoal...eu acho que nunca me considerei um rockabilly, mas de qualquer forma foi uma boa altura, essa, do Moçambique bar em Coimbra.
- Aquilo era muita “loucura” dentro e fora do palco, as imagens que vão aparecendo via youtube mostram-no bem. Nota-se que havia muita interactividade com o público. Tens alguma história desses tempos que possas partilhar?
42na: As histórias aconteciam em quase todos os concertos, era sempre uma grande confusão e houve muitos mal entendidos, sabes, era uma outra época em Portugal, não havia nem metade das “facilidades” que agora há, era fácil haver mal entendidos e sermos mal interpretados, as pessoas em si também eram mais fechadas a novas experiências, e os mas foice tocavam em qualquer sítio para que fossem convidados, alguns deles quem nos convidava nem sabiam o que estavam a levar lá.
2. Tédio Boys - Depois dos “M’as” vieram os Tédio Boys, banda que gerou algum culto, mas que me parece ter mais adeptos actualmente do que na altura. Com essa banda chegaram a ir ao Estados Unidos. Como é que foi toda essa vivência, o que pensavas na altura?
42na
: Na altura pensava que poderia viver da música, que Portugal era bastante pequeno, e claro que pensava em várias possibilidades de começar a minha vida noutro(s) pais(es).
- A ideia de um grupo de cinco rapazes de Coimbra ir à “conquista” daquele país imenso não te assustava?
42na: Antes pelo contrário, nós fazíamos lá o mesmo que em qualquer outro lado, era a nossa maneira de nos expressarmos. Claro, que em certos sítios tivemos melhor aceitação que noutros(tal como cá em Portugal também variava), mas isso nunca nos “assustou”.
- E como é que vias as coisas em Portugal? Tinham muita gente nos concertos, havia espaço para a música dos Tédio?
42na: Tivemos salas muito boas, muito más, fomos “adorados” e “odiados”, acho que ao longo dos 10 anos tivemos muita gente que nos foi fiel, pessoas que cresceram connosco, nunca obrigámos ninguém a gostar do que fazíamos. Sinto que depois de termos acabado como banda todo o projecto cresceu brutalmente.
- O facto de terem surgido tantos projectos com “raiz” nos Tédio, significa que vocês são eternamente insatisfeitos? Ou simplesmente – vou usar uma palavra que está na “moda” – são "empreendedores" da busca da música perfeita?
42na: Eu acho isso só mostra o quanto, cada um de nós, queria e continua a querer produzir. Acho que o processo criativo funciona mesmo dessa maneira, depois de feito e acabado, tudo poderia ter sido feito de forma diferente. Acho que é isso que nos faz querer fazer mais, um misto de insatisfação e de querer fazer melhor ou diferente.
3. D3O - Depois do fim dos Tédio nasceram os D3O. Como e quando é que decidiram formar a banda?
Miguel: Não decidimos propriamente em formar “uma banda”, nem tão pouco com o nome d3o. Tudo surgiu naturalmente. Em 2001/02 tanto eu como o Toni, estávamos “libertos”, e nestas coisas, quando se tem vontade as coisas Acontecem. Assim, o Toni pediu uma guitarra emprestada, e resolvemos tentar puxar pelos dotes (até então desconhecidos) de guitarrista do Toni. Tudo começou como que por brincadeira. Sem querer, em pouco tempo, tínhamos 3 ou 4 temas prontos!
O aparecimento do Tó Rui, surge também naturalmente.. Somos amigos desde sempre, e certo dia, o Tó Rui juntou-se a nós, dando o que faltava ás músicas que tínhamos, e dando também um impulso enorme a outras tantas que estavam por completar. A química, penso que foi o elemento crucial para que quase 10 anos depois, ainda estejamos juntos!
Tó Rui: Foi um processo natural, todos nós estávamos parados, pois tínhamos acabado de sair de projectos recentemente extintos no caso “Garbage Catz” e “Tédio Boys”, mas com uma vontade enorme de fazer música. Como já nos conhecíamos á bastante tempo e tínhamos a vontade conjunta de fazer algo novo, decidimos juntar-nos e ver como as coisas funcionavam, estas primeiras fases são sempre engraçadas, pois é fase da criação sem preconceitos, sem barreiras sem limites e por outro lado descobrimo-nos como músicos e como cada um desenvolve o seu método criativo. È de facto gratificante sentir como se conjugam personalidades e gostos musicais por vezes diferentes num mesmo projecto.
- E Como é que tem corrido esta “aventura”?
Miguel
: “Aventura” será uma qualificação/adjectivação para algo passageiro. Os d3ö são um projecto sério, alicerçado em muita dedicação e entrega por parte de todos os que estão envolvidos.
Já tivemos o privilégio de subir a alguns dos melhores palcos em Portugal, com passagens por Espanha e Inglaterra. Desde o Coliseu dos Recreios em Lisboa ao Teatro Sá da Bandeira no Porto, bares míticos como o Deslize em Braga e/ou Barco no Porto, partilhando-os com nomes como Danko Jones, The Kills, Speed Ball Baby, The Fleshtones, MudHoney e tantos outros.
Para “Aventura”, temos 3 ep´s, um Álbum, um CD Single com dois temas que acompanham a Box (Subotnick Entreprises), um 7 polegadas com edição Inglesa para todo o Mundo (Dirty Water Records), enfim.
Viemos para ficar! Quando surgimos, o Rock tinha morrido (diziam!), entretanto ressuscitou (e nós continuávamos), agora é foleiro cantar em Inglês (e nós continuamos).
- Preferem tocar ao vivo ou em estúdio?
42na: Ao vivo.
Tó Rui: Ao vivo e com o público junto de nós.
- Como é que vocês ensaiam e preparam os espectáculos, com o Miguel radicado em Lisboa?
42na
: Com muito carinho, força de vontade e planificação.
Tó Rui: Por vezes não é fácil, mas como todos temos a mesma paixão pela música e continuamos com vontade de fazer coisas novas, ultrapassamos esses obstáculos com muita força de vontade e respeito entre nós.
- E o processo criativo como funciona?
42na
: Depende
Tó Rui: É um processo natural, tudo começa numa batida que aparece, num riff de guitarra apelativo, numa frase influente em suma quase sempre duma jam-session. Outra questão é o de aproveitar ao máximo as escassas oportunidades que estamos juntos para criar e libertar os pensamentos que nos inundam a alma em forma de música.
- Letras antes da música ou a música primeiro?
Miguel
: O Toni, é liricamente, nato! Nisto, é meio caminho andado. Já vimos temas surgirem a partir de um refrão, como de um “riff” de guitarra ou de uma sequência de bateria.
Nós quando estamos juntos, seja na nossa sala de ensaios, seja num soundcheck qualquer, surge sempre algo que se vai mutando, e adaptando aos mais diversos estados de espírito que vamos sentindo a cada momento. Penso que é isso que torna tão especial o nosso processo criativo. Porque não temos uma formula, para nós é super entusiasmante e estimulante cada vez que coisas Bonitas ou feias acontecem!
- O que é que serve de inspiração para a vossa música?
Miguel: Talvez seja vago, mas.. penso que a Vida.
Tó Rui: A vida e suas aventuras e desventuras.
- Tendo em conta que se vendem cada vez menos discos como é que vocês têm feito para se manter como banda?
Miguel: Tal como te disse á pouco, os d3ö têm como alicerce as pessoas que estão envolvidas, que se dedicam e entregam ao projecto, não por causa dos discos, mas sim porque não querem estar paradas! É óbvio que o registo é muito importante, pois marca um período, e possibilita seguir em frente, fazer melhor. Mas não é determinante na existência da banda, o nosso combustível é o palco!
Tó Rui: Para nos manter-mos como banda o que interessa é tocar ao vivo, e sentir que nos estamos a divertir e a divertir o público que nos vai ver, os discos são registos das várias fases do projecto, o mais importante é sentir que ainda estamos e podemos fazer algo pela música.
- A internet tem sido um amigo – porque os faz chegar a mais pessoas, ou um inimigo – na medida em que contribui para o diminuir vendas?
Miguel
: Está muito claro que a Internet (como em tudo na vida) tem coisas positivas e negativas. Mas penso que o principal problema da crise na industria discográfica, deve-se mais á incapacidade de adaptação por parte da industria, do que propriamente por culpa dos “internautas”. Vemos ainda hoje, projectos Mundiais a terem lucros colossais, e vendas de discos proporcionais. Isto deve-se á Inteligência dos promotores e editoras envolvidas, que sabem aproveitar a existência do melhor meio de comunicação que alguma vez existiu.
Nas décadas de 40, 50 e 60, o single era o mote para o top, tempos idos… O mercado, entretanto, descobriu que para ganhar mais dinheiro, o single não chegava. «Tens de ter um álbum, senão não passas na rádio!», pois, tempos idos... o mercado (composto por pessoas cada vez mais exigentes), têm agora forma de “sacar” as faixas que lhes interessam (singles)... voltámos atrás!? A Internet tem sido nossa Amiga!
Tó Rui: A Internet é o presente e o futuro, tanto os músicos como as editoras é que tem que encontrar a melhor forma de lidar com o que está instituído. Eu continuo a gostar do objecto, se gosto compro o disco, posso ouvi-lo, mexer-lhe e cheira-lo.
- E as rádios e imprensa em geral? Têm ajudado?
Miguel
: Hoje em dia, ninguém ajuda ninguém! Ou têm interesse em ti, ou não tens hipótese. Em todo o caso, e porque a imprensa da especialidade é efectivamente muito incerta (mercado/ tendências), quem depende “dela”, tanto aparece com desaparece.
De resto, é obvio que gostávamos que a nossa música passasse mais na rádio, mas se não querem pôr o disco de d3ö a tocar, que podemos nós fazer!? Não esmorecemos por causa disso. As playlists, são o que são à já muitos anos..
Tó Rui: Costumo dizer “Quanto maior a altura maior a queda”, enerva-me bastante a criação de “Next Big Things”. Acredito em projectos com alicerces sólidos e não pré-fabricados e creio que os D3o já têm provas dadas suficientes para se afirmarem no panorama musical português. - Tenho sempre ouvido dizer que não dá para viver da música em Portugal. Daí cada um de vós ter a sua profissão. Como é que vocês conseguem conjugar a música com o trabalho?
Miguel
: Agenda, e organização
Tó Rui: É uma questão de dedicação e organização. Se é fácil – Não, se queremos continuar – Sim.
- Sentem algum “entrave” pelo facto de cantarem em Inglês?
Miguel
: Penso que é entrave para alguns “promotores” portugueses. Mas não o é para o resto do Mundo. Há que respeitar as opiniões de todos... a resposta a esta pergunta “dava pano para mangas” :)
Tó Rui: Cantar em inglês saiu naturalmente, achamos ser a melhor maneira de interpretar o nosso tipo de som, que não tem raízes propriamente portuguesas, quanto ao sentir entraves – por vezes.
- Como é que vêm a situação da música portuguesa actual e os D3O como parte dela? (em termos de espaços para tocar, fãs, mercado, etc.)
Miguel
: Tenho ideia que a música em Portugal, está de boa Saúde! Vêm-se projectos novos (todos ou quase todos) cantados em Português. É muito bom!
Espaços existem, e prescrevem-se, inclusivamente, sentimos que as condições técnicas têm melhorado de ano para ano, também devido á sensibilidade das pessoas que gerem esses espaços. Relativamente às pessoas (fãs como lhes chamaste), penso que por serem cada vez mais exigentes, só se deixam enganar uma vez. Nem as rádios fazem milagres.
Nós nesse campo, continuamos a tocar ao vivo, como disse mais atrás, á quase 10 anos. Penso que responde á tua questão!
Tó Rui: Creio que existem muitos bons projectos em Portugal, pena que ainda muita gente pense que para ter um bom cartaz de festival tenha que se ir buscar na sua maioria bandas além fronteiras, ou que não se pague às bandas nacionais para tocar nesses grandes eventos (desabafo).
- Já se encontram a preparar um novo disco para suceder ao “Exposed” ou para já o vosso objectivo é rodar este ao vivo?
Miguel
: O Objectivo, é rodar sempre ao vivo! Vontade de continuar a registar os períodos da nossa evolução, é uma consequência. veremos o que poderá estar para vir.
Tó Rui: Para já estamos a rodar o “Exposed”, mas já há coisas novas em curso, aguardem!
- A hipótese de internacionalização passa-vos pela cabeça?
Miguel
: A Internacionalização, penso que já é um dado adquirido. A internet, proporcionou isso mesmo. As nossas idas a Espanha e Inglaterra, serão para repetir sempre que possível! O desejo de ir ainda mais longe, também é um facto. Utilizando uma frase já gasta - "The Sky is the Limit!"
Tó Rui
: Passa e já aconteceu com datas em Inglaterra e Espanha, inclusive a edição de um single por uma editora estrangeira (Dirty Water Records),não acho que seja nada utópico sonhar com a internacionalização.

Da minha parte quero agradecer aos elementos do grupo a disponibilidade e desejar-lhes um futuro cheio de boa música e muitos concertos.

2 comentários:

Miguel disse...

Ei João!
Grato pelo interesse e um até Sempre!
Abraço :)

Joao Nuno Silva disse...

Grande Miguel.
Eu é que agradeço a vossa disponibilidade.
Um Abraço